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Crítica

Com seus vidros, Désirée Sessegolo não só transmite alegria, como nos leva a refletir sobre a presença do homem no universo.

Jean Blanchaert

Curador e Galerista

Carl von Linné, mais conhecido como Linneo, um cientista sueco que viveu no século XVIII, codificou os três reinos: mineral, vegetal e animal.

Désirée Sessegolo aperfeiçoou a técnica do vidro celular com o qual realiza suas obras, que têm a característica de pertencerem aos três reinos de Linneo: mineral, vegetal e animal. Désirée passa de um reino ao outro sem mostrar o passaporte, porque não importa em que reino esteja, a casa é sua.

A natureza é a sua grande inspiração e as suas esculturas são imóveis como os minerais, captam a luz como os vegetais e movem-se como os animais.

As cores escolhidas pela artista são as da sua mente e da sua alma: o vermelho do amanhecer, o vermelho do pôr-do-sol, o vermelho de Pompéia e o vermelho Ferrari que encontramos nos planos e círculos; o azul persa, o azul ultramarino, o azul do céu e o azul da Centaurea das esculturas perfuradas e suspensas e também o azul do rio Amazonas, todos encerrados numa pequena escultura de vidro; o verde esmeralda, o verde limão, o verde grama e verde do pântano, nos ramos e nas folhas suspensas da coleção Amazônia e nos grandes discos circulares inspirados na “pitangueira”.

E depois, os brancos, os amarelos, os pretos e os transparentes: fusões surrealistas, poemas que fluem como rios, diretamente do coração.

Organismos macrocelulares, elementos químicos como o oxigênio que a artista consegue solidificar.

Sua participação na Venice Glass Week 2022 despertou nos visitantes uma grande admiração pela qualidade das cores que consegue criar. Se durante a exposição Best of Europe, Homo Faber 2018, na Fondazione Giorgio Cini em Veneza, falava-se de um novo verde, o verde Palova, criado pela artista eslovena do vidro, Zora Palova, hoje, olhado o trabalho da artista brasileira, poderíamos falar das cores Sessegolo, puríssimas, absolutas, jamais vistas assim.

A técnica é a da vitrofusão, mas Désirée Sessegolo fez cursos de lampwork em Murano e já está se consolidando nas primeiras criações.

Segundo a Embaixada da Itália em Brasília, atualmente 15% da população brasileira é de origem italiana, mais de quase 30 milhões de pessoas, resultando na maior população de origem italiana em todo o mundo. O Vêneto é a maior região de origem desses cidadãos.

Entre estes, também os Sessegolo, vindos de Schio (Vicenza). Do Vêneto de Andrea Palladio (1508-1580), o mais importante arquiteto da República de Veneza, transferiram-se para a Curitiba de Jaime Lerner (1937-2021), urbanista que mudou o rosto da sua cidade. Andando por Curitiba, veem-se nomes venezianos por toda parte. Nas fachadas de restaurantes, empresas de construção e casas comerciais. Pessoas de certa idade ainda falam em dialeto do Vêneto. As raízes não foram cortadas e, se hoje, na capital do estado do Paraná está nascendo uma pequena Murano, deve-se a Désirée Sessegolo. O gene dessa grande tradição de vidro veneziana permanece viva.

Jean Blanchaert é galerista, curador e crítico de arte.

Com uma trajetória multifacetada, ele se dedica à curadoria de exposições que abrangem vidro, cerâmica, ferro, mármore e fotografia, destacando-se em eventos como Homo Faber (Michelangelo Foundation) e The Venice Glass Week, entre outros.

Há mais de trinta anos, ele comanda a galeria familiar, fundada por sua mãe Silvia em 1957 em Milão. Além disso, ele também atua como ilustrador, calígrafo e escultor de vidro.

Crédito da foto de Jean Blanchaert: Stephano Ferrante

Edilene Guzzoni

Curadora

“A arte de Désirée nasce da pesquisa e da experimentação, do desafio de se perder e de se encontrar. É nesse território que ela busca à transformação e que constrói o seu percurso. Ao redirecionar sua trajetória profissional, Désirée passou a expandir horizontes e a desenvolver uma linguagem cada vez mais singular e sensível na arte em vidro. Em suas obras, razão e sensibilidade, técnica e emoção se entrelaçam em um fluxo contínuo de criação, revelando, por meio da matéria, aquilo que parecia permanecer oculto. O vidro torna-se, assim, campo de investigação poética, onde transparência, cor e luz se transformam em elementos essenciais de expressão.

Em suas peças, os vazios no vidro assumem papel central na composição. Esses desvazios, atravessam a matéria e convidam o olhar a ir além da superfície, criando jogos entre cheio e vazio, luz e sombra, presença e transparência. Inspirada pelos elementos da natureza, onde o vidro encontra no fogo sua força de transformação, a artista incorpora também o acaso como parte do processo criativo. Assim, apoiadas, suspensas ou integradas ao espaço, suas obras irradiam luminosidade e ampliam a experiência visual, revelando a potência poética do vidro, material que, em suas mãos, se torna delicado, vibrante e profundamente expressivo”.

Maria Letícia Rauen Vianna

Doutora em Artes USP e Sorbone

Obra que se inscreve entre o decorativo e o utilitário, mas não incorpora nenhuma destas categorias: é independente, estranha a tais classificações; portanto, design, arte, na sua mais pura expressão e qualidade.

O jogo que esta designer estabelece em suas peças, entre o fluido (anterior, quente) e o rígido (atual/frio), o cheio e o vazio, parece indicar que os “furos” são de fato o trabalho e o “cheio” apenas a maneira de contê-los. Nada mais contemporâneo!

Ana Lucia Verdasca Guimarães

Designer e professora de artes visuais UFPR

Nesta história de audácia, dedicação, talento e inovação que chega aos 15 anos, Desirée estreia em grande estilo: uma jovem com a maturidade artística de quem teve o universo como fonte de inspiração. Arte em sua manifestação profunda e original, assim como emerge da experimentação, do ir e vir, do desafiar-se, do perder-se e do reencontrar-se.

Encontro e transformação!

Desirée parece buscar a si mesma enquanto se torna artesã do vidro (nas palavras de Marília Diaz), enquanto redireciona sua vida profissional em busca de horizontes ampliados e criando obras com uma linguagem mais autoral. E ela o fez e o faz muito bem.

Razão e sensibilidade, técnica e emoção se encontram neste fluxo da obra para o nosso deleite, que nasce da experimentação técnica, de tudo o que é captado através dos sentidos, mas também do que provém do profundo do Ser, na busca contínua de — descobrindo-se artisticamente — revelar o que a matéria-prima esconde.

Utilitárias ou não, suas obras são sempre artísticas, pois é este olhar transformador e inquieto que parece dirigir seu trabalho: a magia. Força e delicadeza. O cheio e o vazio, a possibilidade de atravessar o objeto e ver além.”

The Venice Glass Week

Désirée Sessegolo decidiu exibir sua instalação ‘Amazônia’ na The Venice Glass Week 2018. Com o objetivo de conscientizar as pessoas sobre o problema do desmatamento, a artista conseguiu transformar o vidro em poesia, dando origem a jogos de luz e sombras graças à sua técnica incrível. Mal podemos esperar para descobrir a poética desta obra de arte!

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